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Objetivando a cultura

Fonte: - 07.01.2008

Faça o teste você mesmo, leitor. Garanto que, em se propondo a abrir um livro qualquer especializado na prática da comunicação empresarial (ou mesmo lendo os próprios preceitos de uma comunicação bem feita), os objetivos da ação serão sempre exaltados. Por alguns, serão alçados ao grau de maior importância no planejamento da comunicação. Por outros, serão ditos fundamentais para que se alcance os resultados previstos. Por todos, a definição precisa dos objetivos “comunicacionais” será encarada tal qual a bateria para um desfile harmônico: indispensável para o resultado final.
Isso colocado, prossigo entendendo, como todos já o fazem, as escolas de samba como verdadeiras empresas que planejam e utilizam planos de comunicação para os mais diversos fins. Seja para o relacionamento com os mais diversos públicos com os quais a escola de samba tem de lidar rotineiramente, seja para se armar um bom esquema de venda de fantasias (ação isolada que as escolas teimam em, erroneamente, batizar de marketing) ou mesmo para divulgar informações que consigam impactar o maior número de pessoas com a maior eficácia possível. Todo esse processo é encarado por todas as empresas, algumas vezes de forma mais complexa ou de forma mais simples, mas faz parte da atuação de qualquer departamento de comunicação empresarial.
Entretanto, as escolas de samba levam uma clara vantagem perante qualquer empresa que escolhamos para estabelecer uma comparação. Em suma, as escolas de samba são o exemplo perfeito e sonhado por muitos de uma comunicação interna que gera resultados sem grandes esforços. E isso se aplica a todas as escolas de samba. Vou explicar por quê.
Poucas vezes, consegue-se mobilizar seu público interno, por exemplo, para que ele seja completamente identificado com a empresa, com seus valores e esteja disposto a ajudar em qualquer circunstância para o sucesso do lugar ao qual pertence. Mais difícil ainda é conseguir tudo isso somado ao orgulho de carregar seu nome no peito sem pagar salário. Para isso, as escolas nem sequer precisam se esforçar para conseguir. Aqueles que a freqüentam da zona Norte à zona Sul, conhecem seus valores, sua filosofia, sua história e entendem qual é o seu papel dentro daquela empresa sem que ele seja anunciado, treinado ou explicado à exaustão. Ele é simplesmente incorporado. E, a partir desse momento, tudo o que for do alcance daquele que ama um pavilhão, será feito em prol de um objetivo único, que nunca é declarado como tal, mas que todos que ali estão sabem. Teoricamente, seria o mínimo esforço da comunicação gerando o cenário sonhado por todos os comunicadores. Mas, para mim, a verdade dessa relação está no passado.
Mesmo que inconsciente, houve um grande esforço de comunicação na criação das escolas de samba para que seu estigma se desmistificasse e o samba deixasse de ser alvo de preconceitos. Os valores da cultura negra e, especialmente, aqueles que o samba traz consigo foram propagados e expostos à medida que, hoje, ao visitar uma escola de samba identifica-se facilmente a preservação desses valores, contribuindo assim para o reforço na transmissão das mensagens ao qual me referia acima. Sabe-se, sem maiores reflexões de entendimento, que as escolas, além de títulos e promoções, desejam preservar a cultura do samba e anseiam por ser socialmente úteis no auxílio às mazelas da sua comunidade, por exemplo. Isso faz delas, escolas de samba, com a ajuda de sua comunidade, empresas de atuações múltiplas com objetivos tão numerosos quanto variados.
E é exatamente nesse sentido em que qualquer profissional de comunicação inveja uma escola de samba. Como, com todos os pontos apresentados e somando-se a eles todos aqueles dos quais não tratei nesse artigo, uma escola de samba consegue mobilizar todo o seu público interno para o alcance de múltiplos objetivos com um mínimo esforço de comunicação? E, sinceramente, não acho que somente a paixão (que poderia ser citada por muitos como a resposta para a pergunta) consiga criar esse ambiente de mobilização. Haja vista o futebol que lida com o mesmo tipo de emoção e investe dinheiro e esforços em ações de relacionamento com seus torcedores e não consegue alcançar o mesmo tipo de envolvimento. A resposta, na minha opinião, remonta algo intrínseco a todas as escolas de samba: a cultura popular. Só ela é tida e entendida como pertencente e dependente de nossos esforços. E, para tanto, nenhum outro objetivo precisa se declarar.

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